Espiritualidade e saúde mental


Alguns aspectos históricos

A ideia de que religião e psiquiatria sempre estiveram em conflito é senso comum. Um dos mitos fundadores da psiquiatria é que psiquiatras libertaram o gênero humano da superstição religiosa em relação aos transtornos mentais. Entretanto, estudos históricos mais recentes têm questionado essa ias naturais. A alegada oposição entre a iluminada medicina e a teologia obscurantista, assim como entre o médico humanista e o religioso cruel, tem sido profundamente questionada (Kroll, 1973; Vandermeersch, 1991). De fato, a história das religiões e a atenção a pessoas sofrendo de transtornos mentais têm muitos pontos em comum. Os xamãs, representantes provavelmente da primeira profissão do mundo, eram um misto de sacerdote e psiquiatra. Na civilização ocidental, organizações religiosas proveram alguns dos primeiros cuidados aos portadores de sofrimento mental.

Da Idade Média ao século passado, ordens religiosas criaram e mantiveram a grande maioria dos hospitais. O primeiro hospital destinado aos cuidados de enfermos mentais foi construído em Valência, na Espanha, em 1409, dirigido por religiosos. Grupos religiosos fundaram e mantiveram hospitais psiquiátricos nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Alemanha e nos Países Baixos, entre outros. No Brasil, várias das primeiras instituições de tratamento psiquiátrico também foram construídas e mantidas por grupos religiosos católicos e espíritas (Stroppa e Moreira-Almeida, 2008).

A partir do século XIX, alinhados com alguns intelectuais antirreligiosos, que consideravam religiosidade um estado social e intelectual primitivo, alguns médicos como Charcot e Maudsley desenvolveram críticas e tomaram como patológicas várias experiências religiosas. Freud, ao adotar uma postura de desvalorização da R/E, teve grande influência sobre a comunidade médica e psicológica. Ele enfatizou a influência irracional e neurótica da religiosidade sobre a psique humana. Em 1930, na obra O mal-estar na civilização, escreveu que religião resultava em “desvalorização da vida e distorção da visão do mundo real de uma maneira delirante – o que pressupõe uma intimidação da inteligência”. Embora houvesse psiquiatras com uma visão mais positiva da religiosidade, como Carl Gustav Jung, a postura negativa era predominante.

Mesmo no final dos anos 1980, o psicólogo Albert Ellis, fundador da terapia racional emotiva, que teve grande influência sobre a terapia cognitivo-comportamental, afirmou que religiosidade “é, em muitos aspectos, equivalente a pensamento irracional e distúrbios emocionais”, então, “a solução terapêutica elegante para problemas emocionais é ser não religioso [...] quanto menos religiosa elas [as pessoas] são, mais saudáveis emocionalmente elas tendem a ser”. No entanto, essas enfáticas declarações acerca da espiritualidade e da religiosidade em saúde mental não eram baseadas em estudos bem controlados, mas principalmente na experiência clínica e na opinião pessoal.

Segundo Lukoff et al. (1992), um fator que pode ter contribuído para essa atitude negativa em relação à religiosidade seria a existência de um “abismo religioso” entre profissionais de saúde mental e seus pacientes. Psiquiatras e psicólogos tendem a ser menos religiosos que a população em geral e não recebem treinamento adequado para lidar com questões religiosas na prática clínica. Por esse motivo, têm frequentemente grandes dificuldades de entender pacientes com comportamentos e crenças religiosas.

Por todos esses fatores, em nosso treinamento como médicos, em especial na área da psiquiatria, normalmente a questão da espiritualidade não era abordada ou, quando era, a ênfase se dava basicamente em seus (reais e supostos) efeitos deletérios. Religiosidade e espiritualidade eram habitualmente consideradas como associadas com neurose, repressão, imaturidade psicológica, intolerância, baixa adesão aos tratamentos médicos e baixo nível intelectual. A ideia de que espiritualidade era apenas um vestígio do passado que desapareceria com o progresso cultural, social e psicológico foi uma crença que tomou força em meados do século XIX e se tornou predominante nos meios acadêmicos ocidentais ao longo da maior parte do século XX.

O debate sobre as relações entre R/E e saúde é habitualmente permeado de preconceitos, de opiniões pré-formadas, tanto a favor quanto contrárias à espiritualidade. A maioria das pessoas tem opiniões sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis. É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante e uma negação dogmática ou, por outro, para uma aceitação ingênua de afirmações pouco fundamentadas. Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou antirreligiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas (Moreira-Almeida, 2007).

Relevância clínica da religiosidade/espiritualidade



Tabela 1 - Crenças espirituais pelo mundo
Temos uma alma (%) Há vida após a morte (%)
Índia 81 66
Estados Unidos 96 81
Indonésia 99 99
Brasil 82 71
Paquistão 100 100
Brangladesh 99 56
Nigéria 97 88
Rússia 67 37
Japão 71 51
México 93 76
Filipinas 96 86
Alemanha 88 45
Egito 100 100
Turquia 92 90
Obs.: Os dados sobre a China não estão disponíveis na base de dados pesquisada.
Fonte: wwww.worldvaluessurvey.org

Nas últimas duas décadas, pesquisas científicas rigorosas sobre as relações entre R/E e saúde têm sido realizadas e publicadas nas
literaturas médica e psicológica. Essas pesquisas de boa qualidade mostram que a profecia de desaparecimento da R/E não se cumpriu.
A espiritualidade permanece importante para a vida da maioria absoluta da população mundial e tem-se mostrado que o envolvimento religioso é geralmente relacionado com melhores indicadores de saúde mental e bem-estar. Na tabela 1, pode-se ver que a crença em aspectos ligados à espiritualidade está presente na maioria absoluta dos habitantes dos países mais populosos do mundo.

Além do aspecto de crenças, o Brasil é um país muito religioso. A tabela 2 mostra algumas dimensões do envolvimento religioso em nosso país. Os dados são referentes a uma pesquisa colaborativa entre a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que entrevistou uma amostra de 3.007 pessoas, representativa da população brasileira (Moreira-Almeida et al., no prelo).

A ampla maioria dos estudos de boa qualidade, realizados até o momento, aponta que maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente a indicadores de bem-estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade, afeto positivo e moral elevado, melhor saúde física e mental. O nível de envolvimento religioso tende a estar inversamente relacionado à depressão, a pensamentos e comportamentos suicidas, ao uso e abuso de álcool e outras drogas. Habitualmente, o impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é mais intenso entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas. Por outro lado, a R/E também pode se associar com piores indicadores de saúde quando há ênfase na punição e na culpa, conflitos religiosos, intolerância ou atitudes passivas diante de problemas (Stroppa e Moreira-Almeida, 2008).

Tabela 2 - Envolvimento religioso do brasileiro
Dimensões da religiosidade (%)
Filiação
Católico 68
Protestante 24
Espírita 2
Outras 1
Sem religião 5
 
Frequenta mais de uma religião 11
Frequência a serviços religiosos  
≥ 1 vez por semana 37
1 a 2 vezes por mês 18
Algumas vezes por ano 14
Raramente 18
Nunca 12
 
O quanto a religião é importante na sua vida?
Muito importante 83
Um pouco importante 11
Indiferente 4
Não é importante 2

Os mecanismos pelos quais a R/E pode influenciar a saúde ainda não são bem conhecidos. Os mecanismos mais comumente propostos estão listados na tabela 3.

Além de estar relacionada com menos transtornos mentais, a R/E também tem-se associado com maior bem-estar, otimismo e esperança. Infelizmente, o foco das pesquisas em saúde não é, na realidade, sobre a saúde, mas sobre as doenças, sua patogênese e os modos de preveni-las, curá-las ou aliviá-las. Contudo, nos últimos anos tem havido uma tendência crescente de focar aspectos relacionados ao bem-estar, à felicidade e à qualidade de vida (Cloninger, 2006; Seligman et al., 2006).

Antonovsky denominou essa abordagem de “salutogênese”, ou seja, buscar como mantemos nossa saúde, apesar das adversidades e situações estressantes (Lindström e Eriksson, 2006). Dependendo de certos fatores, as pessoas podem não apenas ser capazes de lidar bem com um evento traumático, como violência ou doença grave, mas podem até mesmo vivenciar mudanças positivas em si mesmas, o que tem sido chamado de “crescimento pós-traumático”. Algumas dessas mudanças positivas podem envolver conceitos sobre si mesmo (sentindo-se mais forte e capaz), relacionamentos interpessoais (capaz de amar mais as pessoas de modo mais compassivo) e filosofia de vida (revisar as prioridades na vida e vê-la como algo precioso). Uma revisão recente identificou que fatores religiosos como coping religioso positivo e maiores níveis de envolvimento e participação religiosa se associaram com crescimento pós- -traumático (Shaw et al., 2005).

Tabela 3 - Mecanismos propostos para relação religiosidade/espiritualidade-saúde
Hábitos de saúde: dieta, menor uso de álcool ou drogas e menos envolvimento com situações violentas e de risco à saúde
Suporte social: maior e mais profunda rede social, trabalho voluntário
Estratégias cognitivas: crenças que promovem a autoestima e provêm significado à vida e às situações estressantes
Psiconeuroimunoendocrinoligia: ↓ níveis de interleucina-6 e cortisol
Coping religioso (estratégias para lidar com problemas) Positivo Negativo
Tentei encontrar um ensinamento de Deus no que aconteceu Imaginei o que teria feito para Deus me punir
Fiz o que pude e coloquei o resto nas mãos de Deus Não fiz nada, apenas esperei que Deus resolvesse os problemas para mim
Pensei como minha vida é parte de uma força espiritual maior Pedi a Deus que fizesse tudo ficar bem
Busquei dar apoio espiritual a outras pessoas Fiquei imaginado se Deus tinha me abandonado
Foquei-me na religião para parar de pensar em meus problemas Questionei o amor de Deus por mim
Orei para encontrar uma nova razão para viver Questionava-me se minha comunidade religiosa tinha me abandonado
Pedi perdão por meus erros

Assim, o crescente reconhecimento de que a R/E semantém como uma dimensão importante da vida das pessoas em todo o mundo, bem como a constatação de que as práticas e as crenças religiosas dos pacientes influenciam o cuidado e a evolução dos problemas de saúde, tem levado a um esforço internacional de integrara R/E na prática médica. A maioria das faculdades de medicina dos Estados Unidos e algumas do Brasil já oferecem algum tipo de treinamento na área. Várias organizações de saúde mundialmente relevantes, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations, o American College of Physicians (Estados Unidos) e o Royal College of Psychiatrists (Reino Unido), têm enfatizado a importância de abordar questões de R/E na prática clínica. Com o intuito de permitir maior acesso dos clínicos e pesquisadores brasileiros ao que tem sido publicado na área de espiritualidade e saúde, foi criada a Biblioteca Virtual em Espiritualidade e Saúde (BVES) (www.hoje.org.br/bves), na qual são disponibilizados gratuitamente artigos e teses na área.

Como forma de promover uma introdução ao temapara a classe médica, fornecendo um panorama abrangente e prático, os próximos quatro fascículos que compõem esta série abordarão os seguintes tópicos: • Importância e impacto da espiritualidade na saúde mental. • Psicoterapia e espiritualidade. • Espiritualidade na prática clínica. • Rotas promissoras de pesquisa em espiritualidade e saúde. Estamos certos de que esta série do Zen Review colaborará para chamar a atenção da comunidade médica brasileira para a importância da R/E em nossa prática clínica diária, buscando auxiliar no cumprimento de nossa missão de minorar o sofrimento e contribuir para uma vida mais plena de todos aqueles que nos dão a honra e a responsabilidade de confiarem sua vida aos nossos cuidados.

Alexander Moreira de Almeida

CRM-MG 44239
Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência e doutorado em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Pós-doutorado pela Duke University (Estados Unidos). Professor adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da UFJF. Professor responsável pela disciplina de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde na pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da UFJF (www.ufjf.br/nupes).

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